6 de dezembro de 2019

Crítica: "THE WHO - WHO" (2019)



A idade avançada também traz suas crises, inseguranças e reflexões constantes sobre vida e morte. A prova disso está no novo e bom álbum dos roqueiros britânicos do The Who, intitulado apenas “Who” (2019). Roger Daltrey e Pete Townshend pausaram as turnês que apenas revisitam o catálogo sessentista e setentista de sua clássica banda, e decidiram que estava na hora de registrar algo que unificasse o passado e o presente num mesmo pacote.

Nenhum fã do velho rock clássico precisa se preocupar, pois a sonoridade do The Who continua calcada em rocks e baladas, vocais maravilhosamente joviais e teatrais de Daltrey, guitarras elegantíssimas de Townshend, teclados climáticos, e uma cozinha que agora fica em segundo plano – quase uma homenagem aos saudosos John Entwistle e Keith Moon, membros da formação clássica do grupo. O diferencial está mesmo é nas letras, bastante realistas e atuais.

A ótima “All This Music Must Fade” inicia o trabalho com ecos do hino “Won't Get Fooled Again”, juntamente com ritmos intrincados, vocais energéticos, e uma temática bacana sobre plágios musicais. Outro grande destaque é “Ball and Chain”, um envolvente blues rock cadenciado e sombrio que discursa sobre os perrengues numa prisão. Fechando a trinca inicial, “I Don't Wanna Get Wise” é um bom rock retrô com melodias grudentas, e que traz letras quase autobiográficas sobre as vantagens e desvantagens do amadurecimento.

A excelente “Detour” é um rock ‘n’ roll divertido e percussivo que mistura o estilo de Bo Diddley com a própria “Magic Bus” do The Who. A boa e melódica “Street Song” parece ter sido feita para ecoar em grandes estádios, e nos apresenta a performance vocal mais arrepiante de Daltrey. Já a morna “Hero Ground Zero” falha um pouco em relembrar a vibe sinfônica de opera rock à la “Quadrophenia” (1973). Outra faixa apenas ‘ok’ é “Rockin' in Rage”, que vai da calma soturna à explosão nervosa, com Townshend e Daltrey buscando alguma revolta na velhice.

Entre os pontos mais fracos, temos “I'll Be Back”, uma balada de soul pasteurizado que seria no máximo um lado-b do Simply Red. E a última faixa, o flamenco esquisito “She Rocked My World” é uma tentativa falha de trazer experimentalismo logo aos 45 minutos do segundo tempo...

Sim, esse décimo segundo álbum do The Who é uma mistura de simplicidade com senso de variação, como uma forma de juntar as meditações da terceira idade com impulsos jovens e questionadores que não podem morrer. Com ecos em especial dos álbuns “Who’s Next” (1971) e "Who Are You" (1978), esse “Who” é o melhor dos quatro álbuns lançados após a morte de Keith Moon, e é um belo suspiro final de uma das melhores bandas que o rock nos ofereceu.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. All This Music Must Fade
2. Ball and Chain
3. I Don't Wanna Get Wise
4. Detour
5. Beads on One String
6. Hero Ground Zero
7. Street Song
8. I'll Be Back
9. Break the News
10. Rockin' in Rage
11. She Rocked My World

22 de novembro de 2019

Crítica: "COLDPLAY - EVERYDAY LIFE" (2019)



A banda britânica Coldplay nunca escondeu o objetivo de levar o seu rock intimista a ares cada vez mais grandiosos e universais. Chris Martin e sua trupe usaram o melhor das influências de U2 e britpop no início dos anos 2000, e então mergulharam no pop quase eletrônico em seus trabalhos recentes. Agora, o quarteto entrega seu oitavo álbum “Everyday Life” (2019), o qual retoma uma sonoridade orgânica e retrô, mas sem deixar de ir além...

Aqui, temos as partes “Sunrise” e “Sunset”, indo do rock alternativo eletroacústico ao experimentalismo, e amarrando diversidade de voz e arranjos a um grande acervo de temáticas: humanidade, união, pluralidade espiritual, e críticas ácidas à guerra e às políticas excludentes. A velha melancolia também voltou em parte, ainda que a esperança fale mais alto.

A razoável faixa “Church” é um dream pop que já abre o disco com espaço para influências culturais do oriente médio. Esse sutil fundo de ‘world music’ também está presente na ótima “Orphans”, um pop/rock alegre e tribal com pitadinhas de Paul Simon, porém corajoso em sua séria letra sobre refugiados da Síria. A ousadia sônica atinge o ápice na excelente, densa e cinemática “Arabesque”, uma espécie de fusion exótico que abusa de um arranjo de metais enquanto dispara uma mensagem política que deixaria o Roger Waters orgulhoso.

Voltando ao lado ocidental, destaco o gospel “BrokEn”, de uma rusticidade bastante simpática. Já “Daddy” é uma balada lúdica ao piano com capacidade de nos arrancar algumas lágrimas, o que a torna uma das melhores do álbum! A quase progressiva “Trouble in Town” aborda o racismo, com uma construção que vai da serenidade soturna a um arrepiante ponto de tensão. E no folk "Guns", Martin soa como um Dave Matthews irritado, ao criticar o armamentismo.

Como nem tudo são flores, devo citar a leve inconstância da parte “Sunset”, pois cai às vezes no mero exercício de ecletismo. E ainda temos faixas fracas como “When I Need a Friend”, que parece um coral no culto de uma religião picareta, enquanto que a balada básica “Champion of the World” usa uma ‘vibe’ meio Echo & the Bunnymen para ser apenas campeã da sonolência.

Pode-se sintetizar o álbum “Everyday Life” através de sua boa faixa-título, uma canção sinfônica que não apenas indica a volta do Coldplay ao universo do rock alternativo diversificado, como também faz ligação com “Everybody Hurts” (do R.E.M.) e com todo o conceito de empatia estabelecido no disco. E assim se encerra uma jornada que, mesmo tendo imperfeições, lembra a essência artística do “Viva La Vida” (2008), e supera as obras lançadas pelos caras desde então. Aqui, há um sentimento sincero e realista: todo dia é incrível, e todo dia é terrível.

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Sunrise
2. Church
3. Trouble in Town
4. BrokEn
5. Daddy
6. WOTW / POTP
7. Arabesque
8. When I Need a Friend
9. Guns
10. Orphans
11. Èkó
12. Cry Cry Cry
13. Old Friends
14. (Son Of Adam)
15. Champion of the World
16. Everyday Life

13 de novembro de 2019

Crítica: "AS PANTERAS" (2019) [sem spoilers]



Quando se fala de empoderamento feminino, a divertida franquia de ação “As Panteras” ainda podia ser considerada discutível, tanto em sua série original de TV (dos anos 1970) como em sua primeira encarnação cinematográfica (da década passada). Agora, a diretora Elizabeth Banks tomou as rédeas de uma saga que sempre foi abordada sob um ponto de vista um tanto masculino, e fez do seu “As Panteras” (2019) um produto dos tempos atuais, ainda que tenha oferecido uma mistura de erros e acertos no resultado final.

A história é uma continuação dos exemplares anteriores, e nos apresenta toda uma geração internacional da agência Townsend. Aqui, as três “Panteras” do momento precisam impedir que um dispositivo de melhoria ambiental seja usado de forma letal por terroristas e afins. Como é deduzível, o novo filme é moderno em alguns pontos ideológicos e ambientais, mas aposta em um formato de escalada investigativa batida que não traz frescor àquelas reviravoltas envolvendo agentes duplos e coisas do tipo.

Na composição de personagens, as coisas também se mostram um pouco trôpegas. A Elena da Naomi Scott é de uma ótima imponência em postura e ação, mas tem personalidade ainda indefinida. Ella Balinska traz indefinição ainda maior para a sua Jane, ao variar de momentos inteligentes para outros de uma ingenuidade cômica bastante forçada. Já Kristen Stewart brilha em tela, fazendo da sua Sabina uma personagem com estilo malandro e com alguma profundidade. Dos vários coadjuvantes, destaco dois “Bosleys”, feitos respectivamente por um Patrick Stewart divertidíssimo e por uma Elizabeth Banks cheia de confiança e segurança.

Claro, também devemos falar sobre o principal: a ação bombástica! Ao contrário das duas obras anteriores, essa aqui leva a tríade “tiros/pancadarias/explosões” a um inesperado nível de economia e sobriedade, um acerto que seria ainda maior se ao menos resultasse num genuíno senso de perigo. A comédia também possui lá uns acertos engraçadinhos. E o elemento feminista atinge o ápice na rima narrativa efetivada entre o início e o desfecho do filme, uma sacada que arrepiará e emocionará qualquer mulher que seja adepta da sororidade.

Apesar dos clichês e irregularidades de execução, o novo “As Panteras” é levemente superior aos dois anteriores, e é bacana o bastante para um fim de semana regado a pipoca. Seu discurso também deverá ser cada vez mais incorporado em grupos de mulheres fortes do presente e futuro, enquanto Kristen, Naomi e Ella estiverem refinando sua química em possíveis continuações dessa saga ainda influente de porrada, estilo e bom humor. Se tudo der certo, elas poderão chutar mais traseiros de homens conservadores por aí...

Nota: 6

Por Fábio Cavalcanti

11 de novembro de 2019

Crítica: "FORD VS FERRARI" (2019) [sem spoilers]



Filmes do segmento de drama esportivo tendem a cair no formulaico, especialmente aqueles norte-americanos que são baseados em fatos reais. Ainda assim, em raros casos, podemos ser surpreendidos com uma exímia e abrangente execução dos elementos que já vimos em milhares de outras obras. Esse é o caso de “Ford vs Ferrari” (2019).

O filme conta a história do designer automotivo Carroll Shelby (Matt Damon) e do piloto Ken Miles (Christian  Bale), que trabalham juntos em uma disputa da Ford contra a Ferrari, nas pistas de corrida. O diretor James Mangold empregou aqui o melhor das suas habilidades no sentido de providenciar um drama que é acessível, identificável e bem-humorado a ponto de nunca se transformar em mera masturbação automotiva.

Além da disputa representada pelo próprio título da obra, temos também o eterno embate entre o corporativismo e o elemento humano, e entre as ambições pessoais e a necessidade de adaptação ao trabalho em equipe. Em paralelo a tudo isso, há uma bela mensagem sobre uma amizade que é desenvolvida através da paixão que dois homens possuem por carros velozes.

Christian Bale faz do seu Ken Miles um piloto energético, intuitivo e às vezes esquentado, numa composição pitoresca que é uma das mais interessantes de sua carreira. E Matt Damon faz do seu Carroll Shelby um contraponto mais sensato e centrado, mas que também possui seus momentos de intensidade. A química entre os dois é excepcional, e move a trama de tal forma que às vezes ofusca os outros personagens, ainda que Caitriona Balfe se saia bem como Mollie Miles (esposa de Ken) e Tracy Letts ofereça uma boa dimensão a Henry Ford II.

O roteiro possui algumas gordurinhas, mas é muito bem desenvolvido. Mangold também parece ter atingido aqui o seu ápice em termos de precisão técnica, especialmente na sua imersiva e convidativa recriação – visual e cultural - dos anos 1960. Destaque ainda maior para o último ato do filme, que unifica todos os seus subtextos através de uma corrida que é eletrizante, extenuante (no bom sentido), e provida de algumas reviravoltas levemente inesperadas.

“Ford vs Ferrari” é pura velocidade e ritmo, tanto dentro quanto fora das pistas. É um drama que se mostra otimista, caloroso, e quase sempre munido de uma boa dose de diversão e loucura por parte de Bale e Damon. De brinde, ele nos faz pensar sobre como podemos encontrar a verdadeira visão em pessoas que estejam longe de uma sala cheia de burocratas. Talvez a própria Hollywood dos tempos atuais precise refletir mais sobre isso, não acham?

Nota: 9

Por Fábio Cavalcanti

5 de novembro de 2019

Crítica: "DOUTOR SONO" (2019) [sem spoilers]



Adaptações cinematográficas de livros são complicadas, especialmente quando se trata de grandes obras de Stephen King. Uma das mais corajosas adaptações é “O Iluminado”, dirigida pelo saudoso Stanley Kubrick, que se estabeleceu como uma obra de caráter bastante autoral em seu estudo de terror psicológico. Quase 40 anos se passaram, e agora temos a adaptação da sua sequência, intitulada “Doutor Sono” (2019), que traz resultados mistos ao tentar ser diferenciada e ao mesmo tempo respeitosa a King e Kubrick.

Na história, Danny Torrance (Ewan McGregor) continua traumatizado pelos acontecimentos no Hotel Overlook, e agora precisa unir seus poderes extra-sensoriais aos da adolescente Abra (Kyliegh Curran), para tentar impedir a ameaça de Rose Cartola (Rebecca Ferguson) e seu culto. O diretor Mike Flanagan não consegue esconder sua indecisão no tom da obra, pois arrisca um enfoque muito mais fantasioso e fabulesco, para depois sentir a necessidade de retomar os elementos e o estilo do filme clássico. O roteiro também tem alguns tropeços lógicos quanto à extensão do lado sobrenatural, e quanto a algumas atitudes estúpidas de certos personagens.

O lado psicológico ainda é forte em suas questões sobre traumas, família disfuncional, medo e até alcoolismo. Ewan McGregor faz uma ótima atuação ao nos mostrar um Danny atormentado que carrega (quase literalmente) vários demônios internos. E Rebecca Ferguson também se sai bem ao transformar sua vilã Rose em um tipo místico e humanizado ao mesmo tempo. Já Kyliegh Curran não cativa tanto com a sua importante personagem, da mesma forma que os personagens secundários se tornam esquecíveis após cumprirem com seus papéis...

Flanagan tem lá sua habilidade, tanto na forma peculiar de nos colocar numa espécie de serenidade sombria durante o desenvolvimento da história, quanto numa fotografia que destaca o seu lado intimista. A decisão de não apelar para certas convenções do terror também é respeitável. Ainda assim, ele só consegue atingir de fato um resultado magistral ao transformar o abandonado Hotel Overlook num personagem central da narrativa, o que nos presenteia com um ato final à la “casa mal-assombrada” que é catártico, arrepiante e memorável!

No fim, “Doutor Sono” apenas expande com alguma competência esse pequeno universo criado por Stephen King. Salve as devidas proporções, ele está mais para “IT Capítulo Dois” (2019) do que para “O Iluminado” de Kubrick, pois é de uma fantasia mais clara e objetiva do que aquela que havia sido apenas sugerida anteriormente. Mesmo com suas falhas, a imersão funciona, o ‘fan service’ está na medida, e o terror se entrelaça bem aos subtextos dramáticos já citados. Este pode não ser um filme realmente iluminado, mas pelo menos não causa sono.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti