16 de agosto de 2019

Crítica: "BARÃO VERMELHO - VIVA" (2019)



Se existe um “big four” do rock nacional no gosto popular, podemos dizer que o Barão Vermelho nunca deixará de fazer parte desse grupo, especialmente por causa dos três excelentes álbuns lançados com Cazuza nos anos 80. A posterior fase com Frejat nos vocais trouxe momentos de qualidade um pouco mais variável, mas quase sempre com elegância e dignidade. Após um hiato significativo, a banda voltou à ativa com Rodrigo Suricato nos vocais, e finalmente lançou o primeiro álbum dessa nova fase: “Viva” (2019).

Aqui, temos apenas 31 minutos de espontaneidade, melodias simples e despretensão... para o bem e para o mal. O som é de um pop/rock eletroacústico que não se distancia de álbuns com o Frejat - como “Supermercados da Vida” e “Barão Vermelho 2004” -, e ainda bem revestido com guitarrinhas marotas à la Rolling Stones. As letras são bem intencionadas em sua vibe ensolarada e positiva, mas desprovidas da poesia cheia de “cores” que encontrávamos nos sons com o Cazuza. E a voz de Suricato, apesar de ser ok, não vai muito além das primeiras marchas...

Faixas como a semi-balada “A Solidão Te Engole Vivo” e o power pop “Por Onde Eu For” possuem uma boa pegada roqueira, mas parecem apenas regurgitar a essência do Frejat. E a faixa “Jeito” é um pop/rock feito de qualquer jeito (sem perdão do trocadilho), e com letras que só o Jota Quest aprovaria. Temos sim algumas músicas bem melhores: a ótima “Tudo Por Nós 2”, que é um quase hard rock melódico de energia contagiante, e a excelente “Vai Ser Melhor Assim”, que chama a atenção pelo ritmo pulsante e instrumental com pequenos ecos de Deep Purple.

Entre as baladas, dois destaques melancólicos: a levemente blueseira “Um Dia Igual Ao Outro” e a tocante “Castelos”, que remetem a um Cazuza regado a álcool em fim de noite. E o folk simplório “Pra Não Te Perder” tem algo de singelo na bela performance vocal de Suricato (e com uma boa participação sóbria da doidinha Letrux). Já o momento mais ousado é “Eu Nunca Estou Só”, que traz resultados irregulares em sua mistura de southern rock tupiniquim, produção moderna, versos redundantes, e um trecho de rap (cantado pelo BK) que ninguém pediu.

Nota-se que os membros fundadores Guto Goffi (bateria) e Maurício Barros (teclado) se divertem em seus instrumentos, mas o cantor Suricato nunca parece muito bem encaixado no conjunto, especialmente pelo fato de os melhores momentos aqui serem de uma atitude rocker que não é sua praia. Ainda assim, “Viva” é um álbum necessário, seja pelo som acessível e feliz, pela superioridade a alguns dos discos lançados com o Frejat, ou por trazer vida a uma banda que estava afundada em naftalina. E que o Barão Vermelho continue voando por aí...

Nota: 6

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Eu Nunca Estou Só
2. Por Onde Eu For
3. Jeito - pop/rock chiclete
4. Tudo Por Nós 2
5. Um Dia Igual Ao Outro
6. Vai Ser Melhor Assim
7. Castelos
8. A Solidão Te Engole Vivo
9. Pra Não Te Perder

13 de agosto de 2019

Crítica: "ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD" (2019) [sem spoilers]



Todos nós sabemos que Quentin Tarantino é um eterno apaixonado pela sétima arte. De forma tão ousada, e às vezes irresponsável, o diretor sempre fez dos seus filmes uma verdadeira salada ácida de gêneros, referências e homenagens ao universo "pop". No seu novo filme “Era Uma Vez em... Hollywood” temos sua versão mais humana, sutil e amadurecida, em cima de uma história agridoce que merece tal abordagem.

A trama gira em torno do ator decadente Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu amigo dublê Cliff Booth (Brad Pitt), dupla que tenta se adaptar a uma Hollywood que passa por mudanças sociais e culturais, às vésperas de uma tragédia (esta ocorrida na vida real) que foi orquestrada pela “família Manson”. Tarantino nos coloca numa corda bamba emocional, oscilante entre a inocência cinematográfica daquela "terra dos sonhos", e o inevitável cinismo que começa a surgir após seu lado obscuro começar a ganhar forma...

Los Angeles é retratada com cores quentes, as quais se entrelaçam com o calor humano fornecido pelos personagens. Não à toa, as performances de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt são hipnotizantes e recheadas de nuances, tanto nos momentos cômicos como nos momentos dramáticos – e arrisco dizer que Pitt chega a quase roubar o filme para si. E Margot Robbie interpreta a saudosa atriz Sharon Tate de forma quase lúdica, como uma representação da imagem romantizada que temos de Hollywood. Há ainda uma galeria de personagens “secundários” que, de forma um tanto episódica, deixam sua marca pitoresca na tela.

Porém, nem tudo é perfeito, pois há um exagero na quantidade de homenagens cinematográficas que “apenas os fortes entenderão”. Os diálogos também não atingem sempre a genialidade trivial que costumava nos prender em cada cena da filmografia do diretor. Após alguma irregularidade narrativa, entramos no último terço do filme, no qual a tensão e suspense dominam de vez as nossas expectativas, e no qual temos também uma memorável e audaciosa cena dentro de uma casa – uma pequena obra prima por si só, “directed by Quentin Tarantino”.

Pequenas falhas à parte, “Era Uma Vez em... Hollywood” é um filme diferenciado de um diretor que costuma ser acusado de se repetir nas suas obras. Da comédia ao drama e suspense, passando pela declaração nostálgica de amor ao cinema, Tarantino faz deste o seu filme mais homogêneo e menos exagerado... e possivelmente, uma alusão tocante a qualquer pessoa que esteja prestes a entrar na fase mais decadente da vida. De alguma forma, podemos nos identificar com a tristeza de Rick Dalton, e podemos ver também a face real de Hollywood.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

9 de agosto de 2019

Crítica: "SLIPKNOT - WE ARE NOT YOUR KIND" (2019)



O Slipknot nunca foi uma banda marcada por qualquer senso de otimismo e positividade, desde o seu já clássico álbum de estreia, lançado há exatos 20 anos. O trunfo desses norte-americanos mascarados sempre foi o caos e a angústia, revestidos pela sua já conhecida mistura de ‘nu metal’, thrash metal e alguns toques alternativos. Seu novo álbum é o “We Are Not Your Kind” (2019), o qual prova que esse grande circo ainda pode encontrar novas formas de nos apresentar o seu bom e velho exorcismo sônico.

O vocalista Corey Taylor passou por maus bocados nos últimos anos, e isso influenciou na essência quase maníaco-depressiva do novo disco, com músicas que falam sobre a tentativa ferrenha – e nem sempre bem-sucedida - de derrotar a depressão ou aprender a conviver com a mesma. O ótimo single “Unsainted” é uma ode às forças psicológicas renovadas, e ainda traz um coro ironicamente angelical como plano de fundo para uma brutalidade sonora que nos lembra do seguinte: para sobreviver, também temos que mostrar nosso lado malvado.

O som do grupo continua bastante nervoso, mas também com algumas inesperadas “baladas”, além de um destaque percussivo que há tempos não se fazia tão inspirado e harmonioso no conjunto. A excelente produção faz as guitarras de Jim Root e Mick Thomson se entrelaçarem de forma mais nítida do que de costume, e até os toques eletrônicos conseguem evocar uma boa ambientação à la “filme trash das antigas” – como na faixa “Spiders”. E Corey canta – ou berra - com versatilidade e vontade de deixar uma nova marca definitiva dentro do heavy metal.

“Birth of the Cruel” e “Red Flag” são pedradas espontâneas que podem derrubar as estruturas de qualquer show. Já a intrigante “Critical Darling” evoca novamente a alternância entre peso e melodia. A excelente “Nero Forte” traz alguma esquisitice melódica e rítmica, enquanto que a quase gótica “A Liar's Funeral” é um irresistível convite ao fundo do poço. Claro, como nem tudo são flores em um disco abrangente, temos também pontos fracos, como o tédio atmosférico de “My Pain” e o lugar-comum suicida de “Not Long for This World”.

Por fim, a excelente e arrepiante “Solway Firth” praticamente define o álbum, com o seu peso quase progressivo, e com letras sobre a falsa felicidade que as pessoas exigem dos depressivos. Com isso, temos em “We Are Not Your Kind” um Slipknot de transparência emocional absoluta, através de altos e baixos – em som e letras – que dialogam com os nossos demônios internos. A numerosa trupe de Corey Taylor e Shawn Crahan entregou um dos seus três melhores discos, e está pronta para adentrar a reta final de uma turbulenta carreira musical...

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Insert Coin [vinheta]
2. Unsainted
3. Birth of the Cruel
4. Death Because of Death [vinheta]
5. Nero Forte
6. Critical Darling
7. A Liar's Funeral
8. Red Flag
9. What's Next [vinheta]
10. Spiders
11. Orphan
12. My Pain
13. Not Long for This World
14. Solway Firth

31 de julho de 2019

Crítica: "VELOZES & FURIOSOS: HOBBS & SHAW" (2019) [sem spoilers]


A franquia "Velozes & Furiosos" se expandiu de tal forma que, poderíamos prever até umas continuações envolvendo viagens espaciais, viagem no tempo e multiversos... e com carros munidos de inteligência artificial e questionamentos existenciais. Por ora, temos o derivado "Hobbs & Shaw" (2019), um filme de menor escala, e que se mostra bem sucedido na arte de colocar em seu caldeirão um pouco de 007, um tanto de Missão Impossível e... esteroides!

A história é simples: O policial Luke Hobbs se junta ao fora da lei Deckard Shaw para combater um megalomaníaco terrorista, numa tentativa de eliminar um vírus que pode mudar o rumo da humanidade. Típica trama de espionagem moderna, recheada de perseguições, tiroteios e porrada, além de bons momentos cômicos – incluindo referências aos clichês do próprio gênero. O diretor David Leitch continua hábil na área da pancadaria estilizada – e muito bem colorizada -, para nos mostrar que certos elementos de “John Wick” e “Atômica” ainda seguem atuais...

Dwayne Johnson e Jason Statham brilham como Hobbs e Shaw, com uma inesperada química à la “buddy cop versão brucutu”, e numa trama que também aborda questões familiares do passado dos seus protagonistas. E Idris Elba faz um vilão que transita bem entre a agressividade e a elegância. Já Vanessa Kirby, que faz a irmã de Shaw, não atinge grande destaque além da sua importante função na narrativa. De brinde, Helen Mirren e mais dois atores "misteriosos" (sem spoilers) fazem pontas engraçadíssimas, e nos deixam com um gosto de “quero mais”...

A ação é de um deleite visual e sonoro que são superiores à maioria dos ‘blockbusters’ atuais, o que pode ser confirmado em duas hipnotizantes cenas de perseguição: uma nas ruas de Londres, e outra envolvendo caminhões e um helicóptero. A montagem também gera boa fluidez nas viagens realizadas pelos personagens. Por outro lado, a história fica um pouco “cansada” na segunda metade do filme, especialmente por ser de uma ação mais... “família”, digamos assim – outro exemplo de como uma classificação baixa pode cortar a liberdade artística de uma obra.

Em “Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw”, podemos dizer que David Leitch conseguiu “tirar leite de pedra”, no sentido de trazer alguma elegância cinematográfica a uma trama que, não apenas é bastante batida, como também repete o caráter episódico e “leve” que se tornou obrigatório em filmes da marca “Velozes & Furiosos”. Temos aqui uma diversão acima da média, e que não deixa de ser um dos melhores e mais bem dirigidos filmes dessa longa e irregular franquia. Hobbs e Shaw estão bem desenvolvidos agora, e prontos para novas aventuras em dupla.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

26 de julho de 2019

Crítica: "SCALENE - RESPIRO" (2019)


Scalene é uma banda de rock alternativo formada em Brasília, capitaneada por Gustavo e Tomas Bertoni, e que fez alguma fama por ter se destacado no programa Superstar (Rede Globo). Em plenos “anos 2010’s”, essa migalha de visibilidade foi o bastante para o quarteto se tornar um dos poucos exemplares ‘mainstream’ do nosso maltratado gênero. E após três álbuns focados numa mistura elegante de rocks, baladas, peso e melancolia, o grupo entrega um disco que, para o bem e para o mal, é o mais ousado e introspectivo da sua carreira: “Respiro” (2019).

Aqui, o Scalene investe em uma sonoridade de tons meditativos, seja em voz, timbres, entrelaces acústicos e eletrônicos, e numa produção “moderninha” que joga as guitarras e baterias para escanteio. As letras consistem de devaneios existencialistas, descobertas de novas perspectivas de vida, e algumas pontuais críticas sociais – provando mais uma vez que o rock, em maior parte, continua avesso a ideologias retrógradas. Porém, essa mistura resulta em uma quantidade considerável de canções pouco inspiradas, além de certo sentimento letárgico...

“Vai Ver” e “Ilha no Céu” são ‘sambas-rock’ soníferos, com violões meio picaretas de bossa nova, e que caem no lugar-comum daquilo em que se transformou o rock nacional após o auge do Los Hermanos. “Tabuleiro” se perde na sua poesia labiríntica, e também distrai o ouvinte que poderia se deixar levar pelo suingue e cadência peculiares da canção. E a quase sinistra “Esse Berro” consegue trazer resultados cômicos, em especial por causa da participação de um Ney Matogrosso que parece recém-chegado de uma abdução alienígena.

Já “Ciclo Senil” é um petardo hipnotizante de tensão crescente, e que se beneficia também de uma espertíssima letra ácida. E “Furta-Cor” é um pop/rock com temperos R&B – intensificados pela boa participação vocal de Xênia França -, e que nos faz flutuar com o seu refrão etéreo e comovente. As lindas e singelas “Casa Aberta” e “Assombra” parecem algo que o Coldplay faria após passar um tempo no Brasil... E num extremo mais soturno, a dissonante e esquizofrênica “Percevejo” soa como um Radiohead rústico que resolveu compor dentro de um calabouço.

Beneficiado pela coragem de usar influências que vão da MPB ao trip hop, o álbum “Respiro” faz valer o seu próprio título: é um relaxamento em um novo ambiente sônico. Pena que, à parte de algumas boas faixas, o Scalene teve aqui seus primeiros momentos de “afogamento” em suas próprias pretensões. O talento do quarteto havia sido constante até então - desde os tempos em que suas influências iam de Muse a Queens Of The Stone Age -, e isso ainda pode nos render grandes discos no futuro... sejam estes de ‘stoner rock’, brega erudito, ou arrocha progressivo...

Nota: 5

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Vai Ver
2. Tabuleiro
3. Casa Aberta
4. II
5. Esse Berro
6. Percevejo
7. Ciclo Senil
8. Sabe O Que Foi?
9. Furta-Cor
10. Ilha No Céu
11. Assombra
12. III
13. O Que É Será