26 de julho de 2019

Resenha: "SCALENE - RESPIRO"


Scalene é uma banda de rock alternativo formada em Brasília, capitaneada por Gustavo e Tomas Bertoni, e que fez alguma fama por ter se destacado no programa Superstar (Rede Globo). Em plenos “anos 2010’s”, essa migalha de visibilidade foi o bastante para o quarteto se tornar um dos poucos exemplares ‘mainstream’ do nosso maltratado gênero. E após três álbuns focados numa mistura elegante de rocks, baladas, peso e melancolia, o grupo entrega um disco que, para o bem e para o mal, é o mais ousado e introspectivo da sua carreira: “Respiro” (2019).

Aqui, o Scalene investe em uma sonoridade de tons meditativos, seja em voz, timbres, entrelaces acústicos e eletrônicos, e numa produção “moderninha” que joga as guitarras e baterias para escanteio. As letras consistem de devaneios existencialistas, descobertas de novas perspectivas de vida, e algumas pontuais críticas sociais – provando mais uma vez que o rock, em maior parte, continua avesso a ideologias retrógradas. Porém, essa mistura resulta em uma quantidade considerável de canções pouco inspiradas, além de certo sentimento letárgico...

“Vai Ver” e “Ilha no Céu” são ‘sambas-rock’ soníferos, com violões meio picaretas de bossa nova, e que caem no lugar-comum daquilo em que se transformou o rock nacional após o auge do Los Hermanos. “Tabuleiro” se perde na sua poesia labiríntica, e também distrai o ouvinte que poderia se deixar levar pelo suingue e cadência peculiares da canção. E a quase sinistra “Esse Berro” consegue trazer resultados cômicos, em especial por causa da participação de um Ney Matogrosso que parece recém-chegado de uma abdução alienígena.

Já “Ciclo Senil” é um petardo hipnotizante de tensão crescente, e que se beneficia também de uma espertíssima letra ácida. E “Furta-Cor” é um pop/rock com temperos R&B – intensificados pela boa participação vocal de Xênia França -, e que nos faz flutuar com o seu refrão etéreo e comovente. As lindas e singelas “Casa Aberta” e “Assombra” parecem algo que o Coldplay faria após passar um tempo no Brasil... E num extremo mais soturno, a dissonante e esquizofrênica “Percevejo” soa como um Radiohead rústico que resolveu compor dentro de um calabouço.

Beneficiado pela coragem de usar influências que vão da MPB ao trip hop, o álbum “Respiro” faz valer o seu próprio título: é um relaxamento em um novo ambiente sônico. Pena que, à parte de algumas boas faixas, o Scalene teve aqui seus primeiros momentos de “afogamento” em suas próprias pretensões. O talento do quarteto havia sido constante até então - desde os tempos em que suas influências iam de Muse a Queens Of The Stone Age -, e isso ainda pode nos render grandes discos no futuro... sejam estes de ‘stoner rock’, brega erudito, ou arrocha progressivo...

Nota: 5

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Vai Ver
2. Tabuleiro
3. Casa Aberta
4. II
5. Esse Berro
6. Percevejo
7. Ciclo Senil
8. Sabe O Que Foi?
9. Furta-Cor
10. Ilha No Céu
11. Assombra
12. III
13. O Que É Será

1 de julho de 2019

Resenha: "HOMEM-ARANHA: LONGE DE CASA" [sem spoilers]


Uma das formas mais depreciativas de se referir aos filmes de super-heróis do grandioso “Universo Cinematográfico Marvel” (‘MCU’) é no uso de argumentos como “filme episódico demais” ou “apenas um trailer para o capítulo seguinte”... palavras essas que foram caladas temporariamente após o fenômeno de “Vingadores – Ultimato”. Porém, por mais que tentemos evitar os argumentos supracitados, eles voltam à tona – para o bem e para o mal – quando falamos sobre o 23º filme da franquia: “Homem-Aranha - Longe de Casa” (2019).

Essa nova aventura se passa em uma viagem escolar pela Europa, onde o Homem-Aranha é convocado por Nick Fury, juntamente com o enigmático Mysterio, para lidar com os vilões chamados de Elementais. Aqui, o diretor Jon Watts não se distancia muito da aura leve e despretensiosa da aventura solo anterior do aracnídeo, e entrega uma narrativa ágil, mais intensa na comédia, e que ainda investe em questões sobre amadurecimento e responsabilidade (#SddsTioBen), além de algumas sutilezas relacionadas a famílias e afins...

As surpresas ficam por conta dos intrigantes jogos de ilusão proporcionados pelo Mysterio, que é um personagem multidimensional muito bem incorporado por Jake Gyllenhaal... embora previsível quanto à principal reviravolta do seu arco. Já o Peter Parker de Tom Holland continua com aquelas dúvidas e inquietações adolescentes de sempre, além de finalmente estabelecer uma química bastante peculiar com a MJ (Zendaya). E os outros personagens, em sua maioria, se alternam entre a acertada utilidade no roteiro e o mero alívio cômico.

A ação é de um deleite para os olhos e ouvidos em sua parte técnica, mas não gera um real senso de perigo, possivelmente por causa do próprio enfoque de Watts em fazer deste um mero “filme ensolarado para as férias”. E, por mais bacana que seja a interação de Parker com mentores diferentes ao longo da narrativa (de Fury a Happy Hogan), é um pouco decepcionante constatar que sua evolução ocorre a passos lentos - e não à toa, o antigo mentor Tony Stark ainda é bastante citado.

Seja como for, “Homem-Aranha - Longe de Casa” é um filme divertido, moderno e “retrô” ao mesmo tempo, e que une bem a ação, comédia e romance adolescente. Tudo bem que as duas inspiradas cenas pós-créditos acabam sendo mais memoráveis do que momentos isolados do filme em si, mas o fato é que a “fórmula MCU” ainda traz pequenas surpresas e gostinhos de “quero mais” em meio a elementos já utilizados à exaustão. Algumas vezes, só precisamos ser devidamente iludidos, seja nas mãos do Mysterio ou nas mãos de Kevin Feige e companhia...

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

28 de junho de 2019

Resenha: "THE BLACK KEYS - LET'S ROCK"


O The Black Keys é um duo norte-americano que surgiu no início da década passada, e que conquistou algum sucesso comercial entre 2008 e 2014 (lembram de "Tighten Up" e "Lonely Boy"?), bem no início do período de “vacas magras” que ainda prejudica o rock como um todo. Após um hiato de cinco anos, eis que Dan Auerbach (voz, guitarra) e Patrick Carney (bateria) retornam com um álbum de rock “garageiro” focado na tríade voz-guitarra-bateria, e que surpreende pelo desapego a qualquer necessidade de modernização: “Let's Rock” (2019).

A faixa de abertura “Shine a Little Light” já manda o tom do disco, ao trazer um ritmo pulsante, guitarras “crocantes”, e letras que apontam uma necessidade de encontrar alguma luz no fim do túnel - algo que contrasta sutilmente com as temáticas um tanto pessimistas da maioria das suas antigas canções. O rock ‘n’ roll quase sessentista “Eagle Birds” remete ao espírito ‘upbeat’ do excelente álbum “El Camino” (de 2011), e exemplifica outra qualidade desse novo trabalho como um todo: o vocal cada vez mais limpo e ondulante de Dan Auerbach.

O primeiro single, “Lo/Hi”, soa como um ZZ Top ‘indie’, e nos coloca diretamente ao volante de um carro numa divertida e ensolarada viagem... E já que estamos falando de viagem, vale destacar também a dançante “Go”, que traz um adorável sabor “surf rock” e nos leva a pisar fundo no acelerador... E o que falar sobre o hipnótico ‘groove’ cadenciado da cínica “Tell Me Lies”?

Pode parecer, até então, que o som desse álbum é meio linear, mas a verdade é que podemos notar também alguns sutis toques de soul (já experimentados em seus três últimos trabalhos), southern rock, e do bom e velho blues. “Walk Across the Water”, por exemplo, é uma bela balada de puro ‘feeling’ em sua serenidade. E a simpática “Sit Around and Miss You” soa como uma fusão de Fleetwood Mac com Tom Petty. Por outro lado, “Breaking Down” não possui tanta coesão, e logo se torna esquecível.

Por fim, “Let's Rock” é um álbum inspirado, bem produzido na sua rusticidade, e que move o The Black Keys das sombras para um ambiente de luz e otimismo... ou, pelo menos, para uma ‘vibe’ de diversão e espontaneidade. Esse é um disco absurdamente necessário nos dias atuais, e que concede um passeio de 39 minutos pelo melhor de um rock ‘n’ roll que mistura bem os timbres ásperos com vocais relativamente tranquilos. Como eles mesmos diriam no excelente country rock “Get Yourself Together”: tente ficar numa boa...

Nota: 9

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Shine a Little Light
2. Eagle Birds
3. Lo/Hi
4. Walk Across the Water
5. Tell Me Lies
6. Every Little Thing
7. Get Yourself Together
8. Sit Around and Miss You
9. Go
10. Breaking Down
11. Under the Gun
12. Fire Walk with Me

26 de junho de 2019

Resenha: "ANNABELLE 3: DE VOLTA PARA CASA" [sem spoilers]


O enorme sucesso dos dois filmes de “Invocação do Mal” foi mais do que o bastante para que se estabelecesse um “universo expandido” dessa saga de suspense, a qual conta agora com a recém finalizada (será?) trilogia de Annabelle, a demoníaca boneca que já havia conquistado aquele pequeno capiroto que existe dentro de todos nós. Porém, esse “Annabelle 3: De Volta Para Casa” (2019) empalidece e cai no genérico, se comparado em especial ao segundo filme do seu próprio segmento...

Cronologicamente, a história começa após o primeiro “Invocação”, quando os demonologistas Ed Warren (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) tentam manter a boneca Annabelle trancada em seu porão... até que um grupo de jovens acaba liberando sua maldição mais uma vez. De novidade, temos novos espíritos que nenhum de nós pediu (mais filmes derivados em vista?), e que não assustam tanto quanto os já apresentados anteriormente. E o casal, ironicamente, sai de cena bem antes de a história começar a ficar medíocre...

O diretor Gary Dauberman inicia a narrativa de forma acertada em seu diferencial, com um tom sutil e quase intimista, em que somos gradativamente apresentados às jovens que são as verdadeiras protagonistas da vez: Judy Warren (Mckenna Grace), Mary Ellen (Madison Iseman) e Katie Sarife (Daniela Rios). Além de serem personagens divertidas, elas são o ponto central da união entre o velho suspense de “casa assombrada” e questões sobre amadurecimento durante uma situação de terror claustrofóbico.

Porém, a partir de determinado momento, Dauberman começa a “empilhar” suas ininterruptas sequências de terror, algo que não apenas muda o tom do filme, como também consegue transformá-lo num barulhento circo – e sim, esse “espetáculo” provoca risos, em meio a uns sustos bem bacanas. Há certa habilidade técnica do diretor, como em algumas empolgantes cenas que usam bons jogos de reflexo ou iluminação. Mas, seus acertos não tiram o nosso desprazer de ver até as protagonistas tomando algumas decisões previsíveis e estúpidas...

Com erros e acertos, “Annabelle 3: De Volta Para Casa” não é um filme ruim... tampouco bom. Ainda existe apreço dos produtores pelo suspense que destaca o elemento humano, logo esse “universo invocado” ainda não está totalmente gasto. Mesmo assim, há uma pergunta esperta que foi colocada aos Warren no início desse filme: “será que não é melhor destruir a boneca de uma vez?”. E a resposta deles diz tudo sobre a demanda comercial que ainda existe por essa franquia: “se destruir, o efeito é pior”. Pois então, a “Invocação da Grana” continua...

Nota: 5

Por Fábio Cavalcanti