13 de setembro de 2019

Resenha: "KORN - THE NOTHING"



Se existe um gênero musical norte-americano que, ao longo dos anos 90 e 2000, gerou simpatia e repulsa em igual quantidade, este é o 'nu metal'. Uma das bandas pioneiras nesse movimento é o Korn, a qual levou suas baixas afinações, melodias quase percussivas, e letras atormentadas a um espaço definitivo no rock clássico. Quase 25 anos após o lançamento do seu influente álbum de estreia, o quinteto entrega seu décimo terceiro trabalho, intitulado “The Nothing” (2019).

O Korn nunca se afastou tanto da sua essência (salve raras exceções), mas aqui eles elevam o clima de pesadelo à enésima potência. O cantor Jonathan Davis passou por problemas pessoais intensos, incluindo a morte de sua ex-esposa, o que resultou em letras fortes sobre traumas (antigos e novos), aflição, sentimento de culpa, e conflitos cada vez piores com seus demônios internos. Toda essa catarse resultou na melhor e mais variada performance vocal de sua carreira, algo intensificado por uma produção que acerta ao ser limpa e cheia de camadas.

A banda entende a fragilidade emocional do cantor, e faz o melhor possível para entregar uma experiência sônica completa, seja na excepcional variação de grooves por parte do baterista Ray Luzier, ou nas boas curvas harmônicas por parte dos guitarristas James Shaffer e Brian Welch, além do pulsante baixo de Reginald Arvizu. “Cold”, por exemplo, é uma ótima música que exprime peso, angústia e versatilidade rítmica na medida certa. Já o bom e melódico single “You'll Never Find Me” é mais simples e direto, e possui um refrão grudento.

A excelente “The Darkness Is Revealing” é soturna e certeira no ‘feeling’ do grupo todo. Já “Idiosyncrasy” e “H@rd3r” são intrincadas, intrigantes e arrepiantes. “The Ringmaster” une sua adorável esquisitice a letras que nos colocam como vítimas de um monstro à la ‘IT’, enquanto que “This Loss” é de uma melancolia que fala sobre nossas partes emocionais que não tem mais conserto. Já entre as baladas, os resultados são irregulares: a tocante “Surrender to Failure” lembra boas faixas suaves do Nine Inch Nails, enquanto que “Can You Hear Me” soa genérica.

No final das contas, podemos notar em “The Nothing” um Korn que evoca um pouco de álbuns como “Issues” (1999) e “The Serenity of Suffering” (2016), porém numa versão em que peso e groove são usados a serviço de um clima mais sombrio e pessimista. O senso de perda fez com que Davis e companhia entregassem algumas de suas melhores músicas, ainda que tenhamos duas ou três faixas fracas no conjunto. Em suma, esse álbum é como um pedido de socorro, e que pode ser resumido pela preocupante linha de uma de suas letras: eu não estou bem.

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. The End Begins [vinheta]
2. Cold
3. You'll Never Find Me
4. The Darkness Is Revealing
5. Idiosyncrasy
6. The Seduction of Indulgence [vinheta]
7. Finally Free
8. Can You Hear Me
9. The Ringmaster
10. Gravity of Discomfort
11. H@rd3r
12. This Loss
13. Surrender to Failure

11 de setembro de 2019

Resenha: "MIDSOMMAR - O MAL NÃO ESPERA A NOITE" [sem spoilers]



Se você não esteve alheio aos gêneros de suspense e terror psicológico nos últimos anos, deve ter assistido a "Hereditário" ou pelo menos ouviu falar no nome do seu promissor diretor, Ari Aster. Em seu novo filme, intitulado "Midsommar: O Mal Não Espera a Noite" (2019), somos levados a uma jornada hipnotizante e macabra de redescoberta pessoal, familiar e espiritual, juntamente com reflexões sagazes sobre sexualidade.

A história gira em torno de Dani, que após uma tragédia pessoal, vai com o namorado Christian e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival interiorano de verão, onde acabam presenciando um culto sinistro. Apesar deste filme pertencer a um subgênero chamado "horror rural", Aster coloca o drama e mistério em primeiro plano, o que traz um ótimo senso de unidade e linearidade para uma trama que lida com problemas de relacionamento (familiares e amorosos) e a necessidade de encontrar novas perspectivas a partir disso tudo.

Florence Pugh entrega uma intensidade excepcional para a sua complexa personagem Dani, que é a força motriz do filme. E Jack Reynor faz do seu Christian um tipo babaca que, de forma funcional à história, nos faz ter algum ódio do seu personagem desde o início. Os outros personagens possuem lá seus momentos - incluindo passagens que beiram o humor negro -, mas acabam tendo funcionalidades que não vão muito além do episódico.

Aster não economiza nos simbolismos, alguns deles óbvios e outros impenetráveis para quem não entende de paganismo e afins. Ainda assim, é fácil encontrar referências cinematográficas que vão de “O Homem de Palha” a “Dogville”, em cima de uma ambientação que gera o sombrio a partir de um céu de claridade quase total. Os excelentes aspectos técnicos de som e imagem também nos causam arrepios em cenas memoráveis, como por exemplo: a que mostra um pós-tragédia, as de rituais com desfechos tensos, ou a de um sexo bem esquisitão.

Apesar de algumas pontas soltas e certa previsibilidade - além de não ser tão assustador quanto “Hereditário” -, o fato é que "Midsommar: O Mal Não Espera a Noite" é um ótimo filme sobre rupturas psicológicas, paradigmas de gênero, e necessidades de pertencimento. É uma narrativa que, lenta e gradualmente, vai te puxando para um pequeno universo bucólico que vai assombrar o seu imaginário durante um bom tempo. Todos nós passamos pelo inferno pessoal de Dani vez ou outra, logo alguns expurgos extremos acabam sendo bastante convidativos...

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti

6 de setembro de 2019

Resenha: "IGGY POP - FREE"



Roqueiros de todas as idades já experimentaram ao menos um pouco do caos, destruição, irreverência inquieta, e outros sabores fornecidos pelo cantor Iggy Pop nos últimos 50 anos - seja através de sua seminal banda de proto-punk The Stooges, ou através de sua extensa e diversificada carreira solo. Após uma bem-sucedida parceria com Josh Homme (Queens of the Stone Age) em “Post Pop Depression” (2016), Iggy resolveu se isolar do rock ‘n’ roll, e traduziu essa fuga através de um inesperado álbum meditativo: “Free” (2019).

A suavidade nunca foi o forte do nosso querido e alucinado Iggy, mas aqui ele elevou o potencial jazzístico do fraco álbum “Préliminaires” (2009), e finalmente encontrou o tom certo de minimalismo e serenidade. Sua voz grave e cansada se mostra tão anestesiante quanto a de um Nick Cave em seus momentos mais soturnos. E os arranjos trazem guitarrinhas econômicas, camadas eletrônicas meio ‘new age’, e alguns curiosos naipes de metais. Já as letras abordam temas que vão do amor à mortalidade, seja de forma melancólica ou irreverente.

O trabalho é consistente o bastante em sua primeira metade. A ótima “Loves Missing” evoca a sonoridade repetitiva e noturna do Interpol (leia-se Joy Division), enquanto que a estrutura meio torta de “Sonali” nos lembra um daqueles bons momentos jazzísticos do Radiohead. Simplicidade e repetitividade também são acertos na divertidíssima “James Bond”, canção em que um vulnerável Iggy precisa da proteção de uma 007 feminina. “Dirty Sanchez” também traz letras engraçadas, através de uma marchinha que é suave e energética ao mesmo tempo.

Após o fusion flutuante e crescente da boa balada “Glow in the Dark”, as coisas mudam de rumo... e aí temos o ato mais irregular do disco, com músicas praticamente recitadas e desprovidas de qualquer percussão. “Page” possui suas qualidades harmônicas, mas escorrega na cafonice. E a trilogia de poemas sombrios “We Are the People” (de Lou Reed), “Do Not Go Gentle Into That Good Night” (de Dylan Thomas) e “The Dawn” podem transformar a meditação do ouvinte em uma soneca certeira.

No fim, apesar de suas irregularidades, “Free” é um álbum gostoso de ouvir em seus 34 minutos de rock suave, jazz esquisito, e baladas etéreas. Recomendo, em especial, uma audição atenta entre a noite e madrugada, após um árduo dia de trabalho. Esse é um trabalho que te convida ao retiro espiritual do Iggy Pop, onde podemos contemplar a vida, mas sem esquecer de uma pequena dose de angústia sincera. O velhinho Iggy está cansado sim, mas ainda está vivo e livre!

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Free
2. Loves Missing
3. Sonali
4. James Bond
5. Dirty Sanchez
6. Glow in the Dark
7. Page
8. We Are the People
9. Do Not Go Gentle Into That Good Night
10. The Dawn

3 de setembro de 2019

Resenha: "IT - CAPÍTULO DOIS" [sem spoilers]



A mensagem por trás de todo o terror de "It - A Coisa" é universal, pois evoca diretamente os medos e traumas que surgem ainda na nossa infância (e que nos acompanham na vida adulta), além de abordar belos tópicos sobre amizade. Em sua nova versão cinematográfica, esse livro clássico de Stephen King foi dividido em duas partes, sendo que agora temos a sua conclusão: "It - Capítulo 2" (2019). Inesperadamente, essa é uma obra que consegue ter um brilho diferenciado, apesar de possuir claras falhas...

Na história, o palhaço demoníaco Pennywise volta à ativa 27 anos após os eventos que chocaram os adolescentes do "Clube dos Otários", o que leva os mesmos a se reunirem para tentar derrotar o vilão em definitivo. O diretor Andy Muschietti fez um bom trabalho em manter o mesmo nível de atenção ao terror e ao drama, algo que tornou o primeiro filme tão especial e abrangente. A diferença é que, dessa vez, há uma entrega ainda maior ao drama, e com um terror que só assustaria a um público infantil.

Óbvio que uma trama sobre personagens adultos possui mais camadas psicológicas a serem exploradas, e isso foi bem resolvido nas quase 3 horas de duração do filme - sem contar o mistério da origem do Pennywise, que deixa algo no ar para a nossa imaginação. E a química entre os "otários" continua afiadíssima, tanto nos momentos melancólicos quanto nas passagens cômicas. A funcionalidade de cada membro na narrativa é outro acerto, intensificado por bons flashbacks que nos trazem de volta os adoráveis atores adolescentes do primeiro filme.

Jessica Chastain faz da sua Beverly a personagem mais intensa e madura do grupo. Já James McAvoy eleva o personagem Bill a um patamar de versatilidade que continua sendo a grande especialidade do ator. Quanto a Bill Hader... este merece até uma indicação ao Oscar, pois acrescenta ao seu carismático personagem Richie a composição mais completa e hipnótica do filme. Por outro lado, numa obra claramente menos violenta, o Pennywise de Bill Skarsgard acaba não oferecendo aqui a mesma imponência e real ameaça que nos foi apresentada antes.

Com uma produção certeira na parte técnica, e com uma narrativa crescente, humana, e ainda eficiente sobre questões psicológicas que podem nos levar à morte, “It - Capítulo 2” finaliza essa saga com dignidade. Porém, com exceção de um final espetacular - tanto na parte do terror quanto no emocionante encerramento -, essa sequência não vai muito além do bom desenvolvimento dramático. O primeiro filme já está flutuando entre potenciais clássicos futuros do cinema, enquanto que esse deve flutuar no grupo de boas sequências meio esquecidas...

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

30 de agosto de 2019

Resenha: "TOOL - FEAR INOCULUM"



São poucas as bandas que possuem passe livre para a experimentação e a loucura dentro do heavy metal. Os norte-americanos do Tool não apenas ganharam esse direito, ainda nos anos 90, como abusaram do mesmo ao longo de quatro álbuns, dos quais dois ou três foram absurdamente influentes no metal progressivo, metal alternativo, e até no lado mais inteligente do ‘nu metal’. Após 13 anos sem material novo, eis que o quarteto volta a surpreender - na medida do possível - com seu novo trabalho: “Fear Inoculum” (2019).

Aqui, o grupo parece estar ciente de que seu auge experimental já passou, mas ao mesmo tempo se mostra renovado e disposto a utilizar elementos prévios com algumas diferenças: músicas maiores e mais cinemáticas do que de costume, emoções em primeiro plano, e virtuosismo técnico em segundo plano. O vocalista Maynard James Keenan está arrepiante no quesito ‘feeling’, e ainda traz novas camadas para a sua habitual voz aveludada. E as letras são bastante claras e objetivas em seus sentimentos de reflexão e evolução pessoal.

A boa faixa-título é um exemplo do espírito do novo álbum, visto que começa de forma suave – e com um pouco daquele clima esotérico que permeia muitas músicas do grupo -, e nos leva a uma viagem crescente de ritmos, guitarras cada vez mais pesadas, e letras sobre o expurgo do medo e negatividade. Já a excelente “Pneuma” possui bases mais psicodélicas, e vai adquirindo intensidade em paralelo aos desdobramentos do seu tema espiritual.

“Invincible” também é muito boa, beneficiada por um instrumental criativo que culmina em um magnífico final claustrofóbico, e provida de uma metáfora que nos leva a imaginar a banda como sendo o velho guerreiro citado na letra. Já “Descending” se alterna entre o letárgico e o agressivo, como forma de abordar as consequências da maldade humana.

A quase comovente “Culling Voices” é outro destaque, graças às modulações vocais de Keenan bem unidas à sua temática sobre conflitos internos. Por fim, a sensacional “7empest” é o momento mais ‘fusion’, pesado e frenético do disco, o qual eleva a bateria de Danny Carey e a guitarra de Adam Jones, e ainda te atinge como a própria tempestade citada em seus versos.

“Fear Inoculum” é possivelmente o terceiro melhor álbum do Tool, logo após os supremos “Ænima” e “Lateralus”. Acima de tudo, ele é como um mantra metálico que vai te colocar num transe, e ainda pode te presentear com uma epifania sobre nosso eterno amadurecimento na vida. Essa é uma banda que passou por vários problemas nos últimos anos, e que agora encontrou sua paz e segurança. Escute todas as músicas com atenção, e sem medo!

Nota: 9

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Fear Inoculum
2. Pneuma
3. Invincible
4. Descending
5. Culling Voices
6. Chocolate Chip Trip
7. 7empest

21 de agosto de 2019

Resenha: "YESTERDAY" [sem spoilers]



Como seria uma realidade sem a música dos Beatles (e, por tabela, sem coisas como Coca-Cola e a banda Oasis)? Pior ainda: como seria a atualidade se, após um apagão no planeta todo, apenas um músico frustrado lembrasse da existência das canções? E se esse músico se apropriasse da autoria de todas essas canções? Essa é a história fantasiosa e quase fabulesca de "Yesterday" (2019), novo filme do consagrado diretor Danny Boyle.

Além da sua trama básica, temos também um lado forte de comédia romântica envolvendo os dois protagonistas: o desajeitado cantor Jack Malik (Himesh Patel) e a sua fofa amiga Ellie Appleton (Lily James). Apesar da boa química entre os dois, há alguns clichês e situações forçadas do gênero ao longo do filme, o que nos faz perceber como o roteiro seria ainda mais forte se trouxesse maior detalhamento nos desdobramentos musicais e nos seus subtextos sobre desonestidade e falta de personalidade.

Por sinal, essa hipotética realidade evoca a questão "talento vs. mediocridade", visto que nem todo mundo possui o dom para compor obras épicas - algo intensificado pelas ótimas piadas depreciativas em cima das aparições do cantor Ed Sheeran na história. Há ainda alguns geniais momentos que exploram o anacronismo que existe numa atualidade fictícia em que essas canções nasceram tão afastadas de sua época e contextos originais (preste atenção nas cenas de “Hey Jude”, “Back in the USSR” e do “White Album”, por exemplo).

Boyle continua empregando classe em sua direção, mesmo em uma narrativa que não se arrisca e não ousa tanto em suas reviravoltas e questões morais. No geral, ele se mostra econômico em seus habituais maneirismos de cores e montagens, além de fazer com que a certa falta de carisma do ator Himesh Patel seja ironicamente funcional para a história e sua mensagem. Some-se a isso a dose de simpatia fornecida pela atriz Lily James e alguns outros...

“Yesterday” é, no fundo, uma bela homenagem à universalidade das canções dos Beatles, em que somos presenteados com uma nostalgia reverente e ideal para uma boa sessão ao lado da família ou dos amigos. A comédia é bem sacada, elegante e nada apelativa – em especial durante as (re)criações das músicas -, e o lado dramático pode te extrair pequenas lágrimas em uma ou duas cenas... Temos aqui um estado de inocência não muito distante do que sentimos ao escutar os sons dos garotos de Liverpool. All You Need is Love!

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti