11 de novembro de 2019

Resenha: "FORD VS FERRARI" [sem spoilers]



Filmes do segmento de drama esportivo tendem a cair no formulaico, especialmente aqueles norte-americanos que são baseados em fatos reais. Ainda assim, em raros casos, podemos ser surpreendidos com uma exímia e abrangente execução dos elementos que já vimos em milhares de outras obras. Esse é o caso de “Ford vs Ferrari” (2019).

O filme conta a história do designer automotivo Carroll Shelby (Matt Damon) e do piloto Ken Miles (Christian  Bale), que trabalham juntos em uma disputa da Ford contra a Ferrari, nas pistas de corrida. O diretor James Mangold empregou aqui o melhor das suas habilidades no sentido de providenciar um drama que é acessível, identificável e bem-humorado a ponto de nunca se transformar em mera masturbação automotiva.

Além da disputa representada pelo próprio título da obra, temos também o eterno embate entre o corporativismo e o elemento humano, e entre as ambições pessoais e a necessidade de adaptação ao trabalho em equipe. Em paralelo a tudo isso, há uma bela mensagem sobre uma amizade que é desenvolvida através da paixão que dois homens possuem por carros velozes.

Christian Bale faz do seu Ken Miles um piloto energético, intuitivo e às vezes esquentado, numa composição pitoresca que é uma das mais interessantes de sua carreira. E Matt Damon faz do seu Carroll Shelby um contraponto mais sensato e centrado, mas que também possui seus momentos de intensidade. A química entre os dois é excepcional, e move a trama de tal forma que às vezes ofusca os outros personagens, ainda que Caitriona Balfe se saia bem como Mollie Miles (esposa de Ken) e Tracy Letts ofereça uma boa dimensão a Henry Ford II.

O roteiro possui algumas gordurinhas, mas é muito bem desenvolvido. Mangold também parece ter atingido aqui o seu ápice em termos de precisão técnica, especialmente na sua imersiva e convidativa recriação – visual e cultural - dos anos 1960. Destaque ainda maior para o último ato do filme, que unifica todos os seus subtextos através de uma corrida que é eletrizante, extenuante (no bom sentido), e provida de algumas reviravoltas levemente inesperadas.

“Ford vs Ferrari” é pura velocidade e ritmo, tanto dentro quanto fora das pistas. É um drama que se mostra otimista, caloroso, e quase sempre munido de uma boa dose de diversão e loucura por parte de Bale e Damon. De brinde, ele nos faz pensar sobre como podemos encontrar a verdadeira visão em pessoas que estejam longe de uma sala cheia de burocratas. Talvez a própria Hollywood dos tempos atuais precise refletir mais sobre isso, não acham?

Nota: 9

Por Fábio Cavalcanti

5 de novembro de 2019

Resenha: "DOUTOR SONO" [sem spoilers]



Adaptações cinematográficas de livros são complicadas, especialmente quando se trata de grandes obras de Stephen King. Uma das mais corajosas adaptações é “O Iluminado”, dirigida pelo saudoso Stanley Kubrick, que se estabeleceu como uma obra de caráter bastante autoral em seu estudo de terror psicológico. Quase 40 anos se passaram, e agora temos a adaptação da sua sequência, intitulada “Doutor Sono” (2019), que traz resultados mistos ao tentar ser diferenciada e ao mesmo tempo respeitosa a King e Kubrick.

Na história, Danny Torrance (Ewan McGregor) continua traumatizado pelos acontecimentos no Hotel Overlook, e agora precisa unir seus poderes extra-sensoriais aos da adolescente Abra (Kyliegh Curran), para tentar impedir a ameaça de Rose Cartola (Rebecca Ferguson) e seu culto. O diretor Mike Flanagan não consegue esconder sua indecisão no tom da obra, pois arrisca um enfoque muito mais fantasioso e fabulesco, para depois sentir a necessidade de retomar os elementos e o estilo do filme clássico. O roteiro também tem alguns tropeços lógicos quanto à extensão do lado sobrenatural, e quanto a algumas atitudes estúpidas de certos personagens.

O lado psicológico ainda é forte em suas questões sobre traumas, família disfuncional, medo e até alcoolismo. Ewan McGregor faz uma ótima atuação ao nos mostrar um Danny atormentado que carrega (quase literalmente) vários demônios internos. E Rebecca Ferguson também se sai bem ao transformar sua vilã Rose em um tipo místico e humanizado ao mesmo tempo. Já Kyliegh Curran não cativa tanto com a sua importante personagem, da mesma forma que os personagens secundários se tornam esquecíveis após cumprirem com seus papéis...

Flanagan tem lá sua habilidade, tanto na forma peculiar de nos colocar numa espécie de serenidade sombria durante o desenvolvimento da história, quanto numa fotografia que destaca o seu lado intimista. A decisão de não apelar para certas convenções do terror também é respeitável. Ainda assim, ele só consegue atingir de fato um resultado magistral ao transformar o abandonado Hotel Overlook num personagem central da narrativa, o que nos presenteia com um ato final à la “casa mal-assombrada” que é catártico, arrepiante e memorável!

No fim, “Doutor Sono” apenas expande com alguma competência esse pequeno universo criado por Stephen King. Salve as devidas proporções, ele está mais para “IT Capítulo Dois” (2019) do que para “O Iluminado” de Kubrick, pois é de uma fantasia mais clara e objetiva do que aquela que havia sido apenas sugerida anteriormente. Mesmo com suas falhas, a imersão funciona, o ‘fan service’ está na medida, e o terror se entrelaça bem aos subtextos dramáticos já citados. Este pode não ser um filme realmente iluminado, mas pelo menos não causa sono.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

30 de outubro de 2019

Resenha: "O EXTERMINADOR DO FUTURO - DESTINO SOMBRIO" [sem spoilers]



Já se passaram 35 anos desde que o diretor James Cameron sacudiu os gêneros de ficção científica e ação bombástica, através do primeiro filme da extensa franquia “O Exterminador do Futuro”. Após três sequências que não trouxeram resultados tão satisfatórios quanto o dos dois primeiros exemplares, o diretor Tim Miller (de Deadpool) uniu forças ao próprio Cameron para criar toda uma nova história que se passa após o segundo filme. Com isso, temos “O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio” (2019), o “terceiro” capítulo da saga.

Na história, Sarah Connor (Linda Hamilton) e a ciborgue Grace (Mackenzie Davis) tentam impedir um novo Exterminador (Gabriel Luna) que veio do futuro para matar a importante humana Dani (Natalia Reyes). Os subtextos continuam sendo aqueles sobre os perigos da tecnologia, e sobre os paradigmas de um futuro distópico dominado pelas máquinas, além de alguns papos sobre escolha e destino. O roteiro repete vários elementos dos dois primeiros filmes, e se alterna entre acertos e erros de execução: por um lado, há consistência em determinadas explicações, e do outro, ainda traz as típicas falhas lógicas sobre viagens no tempo, além de apresentar algumas reviravoltas e decisões que soam aleatórias.

Linda Hamilton continua sendo a mesma Sarah ‘badass’ e cínica do segundo filme, e brilha em cada um dos seus momentos em tela. Arnold Schwarzenegger, o epicentro da franquia, ressurge como o T-800 num contexto que não apenas funciona em termos narrativos como nos leva a apreciar as novas facetas do seu personagem. Mackenzie Davis e Natalia Reyes são muito bem-sucedidas em suas atuações, num roteiro que traz total importância para as suas personagens. E o vilão feito pelo Gabriel Luna é ameaçador o bastante, e tem lá suas próprias sutilezas.

A direção de Miller está longe de ser única e marcante a nível estético ou sonoro, mas é de tirar o fôlego nas empolgantes e incansáveis cenas de ação, as quais surgem sem nunca ofuscar o também extenso lado dramático da história. Destaque para a já memorável perseguição numa estrada do México, além dos tiroteios e pancadarias envolvendo Hamilton ou Schwarzenegger, momentos em que você fará uma viagem no tempo para o cinema “brucutu” dos anos 80 e 90.

Sim, “Destino Sombrio” conseguiu exterminar com sucesso as três continuações de qualidade discutível da franquia “Exterminador do Futuro”, mesmo sem possuir uma quantidade tão significativa de novos elementos. De toda forma, a alma dos primeiros filmes foi recapturada com dignidade, o senso de diversão pipoca com algum conteúdo voltou em grande estilo, e a representatividade feminina é bacana. Estaremos bem servidos se a franquia seguir uma clássica frase que, nesse filme, foi proferida pelo Arnold de forma diferente: eu não voltarei.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti

25 de outubro de 2019

Resenha: "NEIL YOUNG - COLORADO"



O cantor e compositor Neil Young, que agora está no alto dos seus 73 anos de idade, poderia estar lançando álbuns no piloto automático. Ao contrário de todas as expectativas, ele continuou inquieto e entregou discos que vão além do folk rock – acústico ou elétrico – que permeou seus discos clássicos dos anos 60 e 70. Após trabalhos recentes, com sonoridades que não deram muito certo em termos de qualidade, o nosso querido velhinho retornou para sua banda de apoio Crazy Horse, e lançou seu trigésimo nono álbum: “Colorado” (2019).

Dessa vez, o canadense apenas juntou num caldeirão o melhor do folk e rock quase arrastados (no bom sentido) que encontramos em excelentes álbuns gravados com a banda em questão, como “Everybody Knows This Is Nowhere” (1969) e “Greendale” (2003). As guitarras sujas são predominantes, e ainda assim há um equilíbrio entre aspereza e beleza, como se fosse possível ser ácido e crítico sem perder a compostura. E Young não esconde sua voz mais envelhecida, muito menos os pequenos erros de execução das músicas, algo que confere espontaneidade ao trabalho.

As letras são um capítulo à parte, pois vão de questões ambientais a críticas políticas que dariam nos nervos dos conservadores... além dos eventuais momentos de romantismo sincero. A ótima e comovente “Rainbow of Colors”, por exemplo, é quase um pequeno hino a favor da diversidade em nossa sociedade. E no outro extremo, as excelentes e pesadas "Help Me Lose My Mind" e "Shut It Down" são raivosas, densas, e objetivas no seu tom de protesto.

“Think of Me” é um country rock que traz um pouco da adorável inocência dos tempos do Neil no grupo Crosby, Stills, Nash & Young. E a enorme “She Showed Me Love” é uma ótima música voltada a uma estrutura de ‘jam’ letárgica e hipnotizante (um tipo de canção que sempre apareceu nos álbuns da banda). O folk rock “Eternity” e a balada acústica “I Do” são lindos momentos mais intimistas, e ainda nos fazem querer passar as férias numa fazenda.

Pode-se dizer que “Colorado” é um retorno à boa forma de Neil Young, e está próximo do nível de qualidade dos seus clássicos. E a Crazy Horse está bem afiada, especialmente o guitarrista (e às vezes pianista) Nils Lofgren. Os pontos medianos são apenas as faixas “Olden Days” e “Milky Way”, que possuem harmonias meio desencaixadas, e perdem um pouco do aspecto singelo que prometiam a princípio. Seja como for, temos aqui um artista que não perdeu a capacidade de questionar o nosso atual mundo sombrio. Esperemos que Young continue jovem de espírito!

Nota: 8

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. Think of Me
2. She Showed Me Love
3. Olden Days
4. Help Me Lose My Mind
5. Green Is Blue
6. Shut It Down
7. Milky Way
8. Eternity
9. Rainbow of Colors
10. I Do

18 de outubro de 2019

Resenha: "ALTER BRIDGE - WALK THE SKY"



Quem não lembra do final dos anos 90 e início da década passada, em que o rock ainda fazia sucesso comercial? Nessa época, houve a explosão do Creed, uma banda norte-americana de pós-grunge que gerou um misto de admiração e irritação entre o público. Após o seu término, os seus três instrumentistas se uniram ao vocalista Myles Kennedy, e montaram um combo sônico mais forte e virtuoso chamado Alter Bridge, o qual trouxe agora em seu sexto álbum “Walk the Sky” (2019) um estilo ainda mais distante daquela outra banda...

Aqui, Kennedy não apenas atinge uma maior versatilidade em seu típico vocal agudo, como também entrelaça suas emoções com as guitarras furiosas e catárticas de Mark Tremonti. E a cozinha de Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria) traz coesão e grooves na medida certa, sem exibicionismos. Enquanto o som é mais sombrio e exótico do que de costume, as letras conferem maior dose de força e esperança para vencermos as batalhas contra nossos demônios internos, algo bem explicitado por exemplo nas belas baladas “The Bitter End” e “Dying Light”.

O ótimo e pesado single “Wouldn't You Rather” possui harmonias bem sacadas, uma letra levemente otimista, e um sutil background sinfônico que também é uma das marcas do álbum. As coisas ficam ainda mais interessantes na cadenciada “In the Deep”, que chega a lembrar alguns dos sons mais melódicos e amadurecidos do guitarrista Slash (carreira solo onde Myles Kennedy também é vocalista). As arrepiantes “Native Son” e “Pay No Mind” também estão entre as melhores músicas, graças a uma essência duplamente densa e fantasmagórica.

Entre os momentos diferenciados, temos a boa “Godspeed”, que une sintetizadores a uma temática mais alegre, e soa como uma espécie de The Killers em versão hard rock. A excelente “Forever Falling” é mais melancólica e intrincada, e nos faz pensar em como o Chris Cornell se sairia num suposto álbum solo de metal alternativo. Já entre os pontos negativos, cito a irregular “Take the Crown”, que une um verso inspirado a um refrão mediano e deslocado. E “Tear Us Apart” é um pop/rock genérico que parece um Goo Goo Dolls asfixiado em hélio.

No fim, “Walk the Sky” é um álbum que esbanja inspiração do Alter Bridge. Além das letras voltadas à resiliência, a atmosfera sonora pode remeter a uma espécie de filme de terror das antigas. E independente das pequenas mudanças, a banda continua pesada e vigorosa no seu misto de pós-grunge e metal alternativo. Este não é um trabalho superior ao marcante “Blackbird” (2007), mas possui a ousadia do “Fortress” (2013) e é forte concorrente ao posto de segundo colocado na discografia de Tremonti, Kennedy e companhia. O céu é o limite!

Nota: 9

Por Fábio Cavalcanti

Músicas:
1. One Life [vinheta]
2. Wouldn't You Rather
3. In the Deep
4. Godspeed
5. Native Son
6. Take the Crown
7. Indoctrination
8. The Bitter End
9. Pay No Mind
10. Forever Falling
11. Clear Horizon
12. Walking on the Sky
13. Tear Us Apart
14. Dying Light

11 de outubro de 2019

Resenha: "EL CAMINO - UM FILME DE BREAKING BAD" [sem spoilers]



Para muita gente, Breaking Bad é uma das séries dramáticas mais criativas e intensas dos últimos anos. Porém, seu último episódio deixou uma pequena ponta solta quanto ao destino do querido personagem Jesse Pinkman (Aaron Paul), enquanto que Walter White (Bryan Cranston) e outros personagens centrais tiveram seus arcos muito bem finalizados. Tal pendência foi solucionada através do filme “El Camino” (2019), em que a história se passa logo após aquele marcante episódio.

Jesse nos é apresentado já como um fugitivo, e como alguém que deseja superar o passado e encontrar um novo caminho após ter cometido sua parcela de crimes. Assim como ocorria na série, o diretor Vince Gilligan apresenta uma narrativa crescente, sem apelações, e que transita bem entre o drama e o suspense policial. Há mensagens sobre as consequências da vida criminosa, estresse pós-traumático, e sobre a extrema dificuldade – ou impossibilidade – de retomar o controle da vida após certas situações...

Como Jesse é o centro da narrativa, há algumas falhas de condução no sentido de que todos os outros personagens se tornam episódicos – e consequentemente, esquecíveis para qualquer pessoa pouco familiarizada com a série. Aaron Paul faz uma atuação excelente em termos de angústia total, intensificada pelos bons flashbacks que nos mostram não apenas como o personagem mudou bastante ao longo de sua jornada, como também evidenciam a necessidade de uma ruptura com o seu “inocente” passado.

Gilligan ainda nos apresenta uma direção que encontra vida em meio a uma ambientação mais sombria do que de costume, e sem abrir mão de suas rimas visuais e narrativas, além de outros pequenos elementos que se tornam partes importantes do filme. Infelizmente, ele não fornece o mesmo senso de perigo que nos prendia na maioria dos episódios da série, exceto por alguns vislumbres bem interessantes dos seus melhores momentos – como, por exemplo, em uma cena tensa de confronto que remete diretamente ao faroeste.

Sim, “El Camino” é um filme digno, bem amarrado e respeitoso com o legado de Breaking Bad, especialmente quando dá total razão a uma simples frase dita por Mike (Jonathan Banks) logo no início do filme: “você nunca vai conseguir fazer o certo”. Só faltou um “algo mais” para que pudesse ir além de um quase ‘fan service’... o que é compreensível até certo ponto, pois nós amamos Jesse Pinkman. A mensagem universal dessa franquia ainda pode ressoar por muito tempo, pois todos nós devemos lidar com as consequências dos nossos atos.

Nota: 7

Por Fábio Cavalcanti